domingo, 22 de Novembro de 2009

A língua e a afirmação de Portugal no mundo

A língua e a afirmação de Portugal no mundo *

Carlos Fragateiro

Carlos Fragateiro dedica espaço alargado no jornal Público, de 8 de Maio de 2009, para sublinhar o lugar do português na criação de uma Europa multilingue. Pela consolidação de relações com a Espanha e o espanhol — como uma ponte para a América latina —, bem como com a França e o francês — como uma estratégia de aproximação efectiva aos países africanos.



Nos séculos XV e XVI Portugal foi o pioneiro da globalização. Hoje pode assumir-se como laboratório do futuro.

Nos finais do século XV, inícios de XVI, fomos capazes de revelar à Europa que o homem é feito de muitos homens, muitas raças, contribuindo para o aprofundar da visão renascentista e provocando um abalo que forçará a reconstrução e reconfiguração de todo o saber. Esta capacidade de provocar mudanças e de revelar outros mundos faz parte e existe no nosso ADN, o ADN de um país com uma alma que teve o tamanho do mundo e que tem sido transportado através dos tempos pelo espírito da língua portuguesa. Uma língua que é um lugar donde se vê o mundo e de ser nela pensamento e sensibilidade, uma língua como a nossa, como disse Vergílio Ferreira, donde se vê o mar e se ouve o seu rumor e que foi a consubstanciação de um novo espírito que se formou na Europa inteira e que hoje nos pode ajudar a ter um olhar especial sobre o estado do mundo, a inventar um outro sentido do mundo. Uma língua que é hoje a nossa maior riqueza, o instrumento privilegiado e estratégico na afirmação de Portugal no contexto europeu e na afirmação da Europa no contexto mundial.

Em 2008 comemoraram-se duas efemérides ligadas à vida de dois portugueses, os padres Tomás Pereira e António Vieira, verdadeiros cidadãos do mundo que ligaram pessoas e culturas e foram exemplos únicos do modo de ser português. Tomás Pereira, que viveu na China e foi astrónomo e músico, de quem se comemoraram, entre Lisboa e Pequim, os 300 anos do seu nascimento, e António Vieira, o pioneiro da globalização e da multiculturalidade, cujas comemorações dos 400 anos do seu nascimento continuam, a pedido do Brasil, até meados de 2009. Estes dois homens são exemplos paradigmáticos de como as teias, criadas a partir das relações centradas na cultura e no conhecimento, perduram ao longo dos séculos e que têm sido pouco ou nada potenciadas pelos diferentes poderes.

Transportando a nossa língua toda esta carga simbólica e este sentido de mudança, e sendo a terceira língua europeia mais falada no mundo, é naturalmente um instrumento privilegiado na assunção, por parte de Portugal, de um papel activo e de liderança na construção de uma Europa das Línguas e das Culturas, na construção de uma identidade europeia capaz de se afirmar no contexto mundial, num processo que deve potenciar quatro dimensões.

Uma primeira, que coloca no centro os projectos que acolham no seu seio a diversidade cultural e linguística europeia, onde a nova Europa se possa experimentar nos processos de criação, privilegiando duas alianças estratégicas: com a Espanha, não só no contexto do espaço ibérico, mas acima de tudo no quadro da realidade ibero-americana, pois não podemos esquecer que os falantes de Português e de Castelhano representam um universo de 650 milhões em todo o mundo; com a França no contexto do universo africano, pois há muitas semelhanças e interesses comuns entre os projectos da lusofonia e da francofonia.

Uma segunda, que crie condições para que esses criadores e essas estruturas contactem com projectos e práticas de referência, tanto ao nível do Brasil, como da África lusófona, tornando perceptível a sua importância estratégica para a construção de uma Europa que, sendo hoje um mosaico de todas estas realidades, tem uma efectiva dificuldade de as integrar devido ao pouco conhecimento que tem desta realidade multicultural e mestiça.

Em terceiro lugar há que ter em conta a diáspora portuguesa, que permite encontrar em todo o mundo gente que pensa também em português e que podem ser verdadeiros embaixadores de Portugal no mundo, não só projectando o nosso país no contexto internacional, mas também alimentando a nossa compreensão do mundo multicultural e mestiço em que vivemos.

Finalmente, Portugal pode ser um país privilegiado no diálogo com os países emergentes, nomeadamente a China, a Índia e, por maioria de razão, o Brasil, tendo em conta todo o passado histórico e as redes de cumplicidades que se foram reforçando ao longo do tempo e que é urgente não deixar apagar.

Se nos séculos XV e XVI Portugal foi a primeira aldeia global, foi o pioneiro da globalização, hoje pode assumir-se como o laboratório do futuro, como um país que é um efectivo laboratório de diálogo e contaminação de culturas, um espaço de encontros, de troca e de criação de cumplicidades. Portugal pode reassumir um papel estratégico na Europa e no mundo, já não como potência e império, mas como plataforma para a emergência de uma outra cultura, a cultura do conhecimento. Um laboratório onde se simulariam os cenários para o futuro ou os futuros possíveis, criando, como reflecte muito bem este diálogo imaginário entre Picasso e Einstein de uma peça de Steve Martin já apresentada no Teatro da Trindade, uma nova forma de ver o mundo:

Picasso – «Quer dizer que pega numa ideia bela e transforma-a no que ela vai ser na realidade?»

Einstein – «Precisamente. Criamos um sistema e verificamos se os factos encaixam nele.»

Picasso – «Portanto, não está só a descrever o mundo como ele é?»

Einstein – «Não. Estamos a criar uma nova forma de ver o mundo.»

Picasso – «Está-me a dizer que sonha o impossível e ele acontece?»

Einstein - «Exactamente.»

Picasso – «Irmão!»

Einstein - «Irmão!» (abraçam-se.)

* in Público, 8 de Maio de 2009 — 11/05/2009

terça-feira, 6 de Outubro de 2009

Lisboa Plataforma do Futuro

Quando penso em Lisboa penso em Montreal, uma cidade que, pelo facto de falar francês num país como o Canadá que é maioritariamente anglófono, foi obrigada a desenvolver uma relação privilegiada com a França e a Europa como forma de defender a sua língua e a sua identidade cultural. O que parecia um constrangimento transformou-se numa oportunidade, sendo hoje Montreal uma plataforma e um ponto de encontro e diálogo entre as culturas europeias e americana, um laboratório de experimentação e cruzamento de culturas por excelência que produziu criadores e estruturas de referência como Robert Lepage ou o Cirque du Soleil.
Lisboa é essencialmente europeia, mas isso não quer dizer que o seu modelo de futuro deva ser o de Berlim ou o de outra cidade europeia de referência. Lisboa, a capital da língua portuguesa, uma língua que tem em si todas as culturas do mundo, pode e deve ser diferente, porque só assim pode afirmar-se como dona de um conhecimento e de uma capacidade de diálogo com outras culturas e civilizações que a Europa não tem, nomeadamente com a África, o universo Ibero-Americano e a Ásia.
Porque acredito na ideia de Lisboa como Plataforma do Futuro e porque acredito que António Costa vai potenciar esta forma, tão particular e tão abrangente, de ler o mundo e de inventar o futuro como só o universo da língua portuguesa tem capacidade de fazer, reafirmo-lhe o meu apoio cúmplice e solidário de há muito tempo.

Carlos Fragateiro

terça-feira, 18 de Agosto de 2009

Porta de Lisboa ou Praça das Quatro Partidas



Terreiro do Paço ou Praça de Comércio - aquele lugar de Lisboa é um ponto de intercepção de dois mundos que se suportam e alimentam mutuamente.
Ponto de chegada e de partida, começava por lhe mudar o nome para Porta de Lisboa ou Praça das Quatro Partidas. Porta que se prepara nas traseiras de todas as indústrias e comércios para partir para o mundo e Porta que se abre na fronte ribeirinha e no espantoso estuário para receber todas as influências do mundo.
Ponto de intercepção, portanto: entre o passado e o futuro, o Norte e o Sul, o Este e o Oeste, o conhecimento e a cultura nas suas mais diversas expressões deviam reviver e fazer reviver a espantosa visão sobreira do arco de augusto sobre a estátua de D. José e o cais das colunas. Uma foz, como em tempos o foi na realidade e ainda o será nos seus subterrâneos.
Do poder reteria apenas a estátua. Ministérios expulsá-los-ia a todos mas fazia uma tentativa séria para projectar (não necessariamente instalar) o Ministério da Cultura, o da Ciência e Tecnologia e o do Comércio com expressivas representações das suas políticas e actividades sob o lema " o que de melhor se faz em Portugal. Deixava ficar o vetusto S.T. da Justiça, mas projectava em exposições as actividades temáticas das principais fundações, associações, museus, Universidades e Centros Tecnológicos.
A par destas "loja" âncora, adorava ver representado o melhor cinema e teatro de vários estilos e épocas. Acrescentaria um ou mais hotéis de charme e design (um necessariamente low cost para jovens) e envolveria a praça de esplanadas. Uma loja gourmet de produtos portugueses ou que as viagens tenham trazido ao mundo e uma megastore como a Virgin e a Fnac completavam o roteiro.
Essencial mesmo uma filosofia e agenda de gestão do espaço e todas as suas actividades, sem prejuízo da espontaneidade do espectáculo de rua. Lembro que por detrás da Praça há mais praças nas naves que a ladeiam.
Os Torreões devem servir para projectar o que eles dão de melhor: a vista do rio e das suas margens.
Enfim Porta de Lisboa ou Praça das Quatro Partidas onde se projecta o melhor que a cidade e o País têm para dar e receber.

Luís Miguel Costa

segunda-feira, 10 de Agosto de 2009

Cultura e conhecimento: a oportunidade perdida de Sócrates?


"Se tiverem pão e se eu tiver um euro, e se eu vos comprar o pão, eu ficarei com o pão e vocês com o euro e vemos nesta troca um equilíbrio: A tem um euro, B um pão. Mas se vocês têm um soneto de Verlaine, ou o Teorema de Pitágoras, e eu não tenho nada, se vocês me ensinam, no final desta troca eu terei o soneto e o teorema, mas vocês também. No primeiro caso há um equilíbrio, é a mercadoria, no segundo há um crescimento, é a cultura"
Michel Serres

Há uns dias, José Sócrates reuniu-se à porta fechada com 50 artistas de diferentes sensibilidades para saber das suas preocupações, prometendo uma maior atenção à cultura e um maior investimento que, pelo que nos pudemos aperceber, significará mais dinheiro para os artistas ou redes de artistas já há muito dependentes do poder. Esta perspectiva do investimento na cultura revela uma clara incapacidade de assumir a cultura como conhecimento, de ligar as artes com as ciências e as tecnologias, o futuro com a memória, mostrando que não há uma visão transdisciplinar capaz de construir com a cultura os alicerces dum novo tempo. Façamos justiça ao primeiro-ministro, pois esta não é só uma incapacidade sua, pois na mesma perspectiva se direccionam, duma ou doutra maneira, as opiniões de Vasco Graça Moura, porta-voz para a cultura do PSD, os pressupostos do manifesto para a cultura do séc. XXI, o programa do Bloco de Esquerda e a abordagem sobre a cultura do documento O nosso presente e o nosso futuro agora divulgado.
Em Portugal, para além das intervenções do Leonel Moura e de alguns cientistas e filósofos de referência, das poucas referências a uma perspectiva multidisciplinar da cultura gostaria de referir um texto de Rui Tavares sobre a Praça do Comércio, publicado aqui no PÚBLICO, que concretiza duma forma exemplar a ideia da cultura enquanto conhecimento: "Hoje, diz-se, vivemos na sociedade do conhecimento; a questão central é ter uma ideia de Portugal na sociedade do conhecimento. Pois bem, diria Pombal: se essa é a questão central, temos de voltar a colocá-la no centro. No centro simbólico, político - e no centro propriamente dito da cidade."
Quando nos confrontamos com uma crise como a que vivemos, que põe em causa tanto o modelo de desenvolvimento dominante, como o modelo de sociedade, e quando nos apercebemos que os instrumentos de análise da crise só nos permitem ter uma visão sectorial ou disciplinar da realidade, há que perguntar onde está a dimensão social que nos pode dar uma leitura multidisciplinar do mundo. Essa dimensão social é a da cultura, de uma ideia de cultura que seja, ao mesmo tempo, o espaço de encontro connosco e de criação das condições para a descoberta e a invenção do futuro, a bússola ou o nosso GPS social. Uma dimensão cultural onde todos aqueles que experimentam e criam o novo têm um lugar privilegiado, sejam artistas, cientistas, arquitectos, sociólogos, urbanistas, animadores sociais, filósofos, romancistas, onde as redes internacionais sejam redes do conhecimento e da criação do novo, do futuro, e não redes sectoriais.
O mundo está a entrar na era de uma geração habituada a ter um olhar holográfico do mundo, a unir mais que a dividir, a alargar mais que a reduzir. Também em Portugal há um pensamento subterrâneo que se desenvolve, um pensamento criativo e inovador capaz de potenciar a emergência de um novo quadro de pensamento que juntará a utopia da geração da resistência, que ainda acredita que o poder é efémero, com a inovação da geração Erasmus, como na prática já acontece na Ydreams. Um tempo de mudança e de fronteira que será necessariamente o tempo da cultura, o tempo onde o desafio maior é o de sermos capazes de afirmar os projectos que vão determinar o nosso futuro.
Neste quadro de mudança é fundamental que, depois da efectiva aposta que no nosso país se fez ao nível da tecnologia e da ciência, sejamos capazes de dar sentido a estas apostas num quadro global que é o quadro da cultura e do conhecimento, que sejamos capazes de "estabelecer o importante link entre a cultura convencional, a das artes e espectáculos, com a nova cultura do conhecimento, a do plano tecnológico e da ciência" como escreveu Leonel Moura, É este o desafio que José Sócrates não deve nem pode perder.
Carlos Fragateiro
2009-08-11

quinta-feira, 23 de Julho de 2009

‘Cultura, território e comunidade’ Como pode uma comunidade organizar-se para pensar o seu futuro?

José Carlos Mota, Aveiro (16 Julho 2009)


Os Amigosd’Avenida são um grupo de cidadãos de Aveiro que se tem vindo a reunir, de forma informal, há mais de sete meses para reflectir sobre o futuro da sua cidade.
O grupo teve a sua origem no debate público lançado, em Novembro de 2008, pela autarquia aveirense sobre o futuro da Avenida Lourenço Peixinho. Nessa oportunidade, foi entendido por um grupo de pessoas criar um blogue colectivo (http://amigosdavenida.blogs.sapo.pt/) que tem funcionado como espaço de encontro e debate, com a preocupação de assegurar a pluralidade e o confronto de ideias, de trazer conhecimento (técnico e científico), de apresentar exemplos de boas práticas a nível nacional e internacional, mostrando como noutras realidades se desenvolvem políticas públicas locais de mobilidade, cultura, de economia e urbanismo. Para apoiar a reflexão e criar uma maior interactividade com a comunidade foi criada uma mailing-list que tem funcionado, ainda que de uma forma embrionária, como espaço de interacção entre cidadãos, contando, neste momento, com cerca de 180 membros.
Um dos temas a que o grupo tem dedicado particular atenção tem sido as comemorações dos 250 anos de Aveiro e a oportunidade que o evento pode ter para ‘afirmar a cultura como um factor de desenvolvimento e de competitividade’ da cidade. A necessidade de qualificar essa aposta motivou a criação de grupos de trabalho sobre duas questões centrais: a questão da “animação e qualificação do espaço público” e o “papel das actividades artísticas, culturais e de criatividade”.
A leitura de experiências internacionais inspiradores, nomeadamente a estratégia assumida por Vilnius Capital Europeia da Cultura 2009, que defendia a ideia de "levar a arte para a rua e transformar a face da cidade" e que “investia na participação das pessoas e na vivência da cidade", e a constatação da importância, relevância, dimensão e número de agentes artísticos, culturais e do sector criativo/tecnológico existente em Aveiro motivou o lançamento de um desafio à comunidade aveirense – aproveitar as comemorações como oportunidade para estimular a produção artística, cultural e tecnológica, para intervir na qualificação do espaço público da cidade e para criar uma relação mais próxima dos Aveirenses com a sua cidade.
Para apoiar essa reflexão foram organizados vários debates públicos (abertos à participação de todos os interessados) que sistematizaram preocupações/problemas, identificaram princípios de actuação e sugeriram algumas pistas de acção (tendo em conta os escassos meios disponíveis e o curto espaço de tempo para as desenvolver). O ‘caderno de encargos’ obtido neste processo colaborativo foi enviado a todas as instituições da cidade, tendo sido solicitado contributos e avaliado disponibilidades para poderem apoiar a concretizar algumas das ideias presentes.
Das várias propostas sugeridas, o grupo entendeu desenvolver o projecto-piloto “Se esta praça tivesse 250 anos” (http://programadasfestas.blogs.sapo.pt/), inspirado na estratégia de Vilnius2009, e que surge com o objectivo de motivar a organização de um programa de actividades ‘artísticas’ numa das praças centrais da cidade (Praça Melo Freitas) aos sábados à tarde, mobilizando para a sua concretização os vários agentes culturais da cidade (música, teatro, pintura, dança, poesia, entre outras).
A necessidade de articular e coordenar as actividades dos vários agentes artísticos, culturais e criativos da cidade motivou a proposta de criação de uma plataforma institucional (http://plataformaculturaveiro.blogs.sapo.pt/) que se pretende venha a assumir a função de programação e divulgação cultural, de gestão dos espaços e equipamentos culturais, de estímulo de desenvolvimento de acções conjuntas, de apoio à inserção em redes nacionais e internacionais, e de pesquisa e candidatura a programas de financiamento.
Para finalizar importa referir os Amigosd’Avenida lançaram, recentemente, um manifesto por ‘uma política de qualificação e animação do espaço público da cidade de Aveiro’ (http://manifestopelacidade.blogs.sapo.pt/) o qual pretende contribuir para a qualificação das opções de política cultural e urbanística para a cidade de Aveiro. Com base no manifesto está a ser desenvolvido o projecto cinematográfico ‘Aqui! / Here!’, liderado pelos Amigosd’Avenida e pelo Festival AVANCA’09, que se desenvolverá a partir dos dez princípios para criar dez curtas-metragens desenvolvidas em dez cidades dos cinco continentes (http://aqui2009.blogs.sapo.pt/).




Questões finais para reflexão:
Vivemos em Aveiro (e atrevo-me a dizer, um pouco por todo o país) um momento de preocupante apatia colectiva (das comunidades e das instituições), um desânimo perante as dificuldades e alguma desorientação relativamente ao(s) rumo(s) a tomar.
Perante esse quadro o movimento cívico Amigosd’Avenida tem procurado incutir na sua comunidade um espírito de inquietação e de mobilização, como forma de responder aos problemas ou às oportunidades identificadas.
Apesar das inúmeras iniciativas desenvolvidas (Blogue; mailing-list; Grupos de trabalho/reuniões públicas; Projecto animação ‘Praça Melo Freitas’; Proposta da Plataforma; Manifesto; Projecto ‘Aqui!’) estamos perante uma experiência muito recente, de carácter experimentalista, e sem uma avaliação sólida dos seus resultados.
Contudo, apesar das ‘limitações’ na avaliação dos resultados, pode valer a pena reflectir sobre o método utilizado. Salienta-se, assim, a preocupação de:
identificar o(s) tema(s) mobilizadores (no caso de Aveiro ‘as comemorações dos 250 anos’, a ‘Avenida Lourenço Peixinho’);
mobilizar os agentes de mudança (os cidadãos interessados, os agentes culturais);
perante a inércia institucional, encontrar plataformas alternativas de acção (com lideranças partilhadas);
gerar colectivamente ideias e mobilizar meios (vontade, interesse, gosto, dedicação) para as implementar (‘contra todas as dificuldades’);
experimentar e arriscar (‘não se ficar pelas palavras ou pelas boas intenções’);
avaliar resultados e corrigir trajectórias (partilhar o processo de construção das ideias; dificuldades; resultados; sucessos);
usar a internet (blogue) e os meios de comunicação social local (asseguram a ‘disponibilidade permanente’ da informação; a rede; a ampliação da ‘base social de apoio’; a transmissão das ideias para a ‘mesa do café’);





terça-feira, 21 de Julho de 2009

Povo que Lavas no Rio Águeda


O espectáculo “Povo que Lavas no Rio Águeda!”, de autoria e encenação da D’Orfeu (Associação Cultural de Águeda), e resultado de uma exemplar parceria com Câmara Municipal de Águeda, fez regressar o célebre poema de Pedro Homem de Mello à génese da sua inspiração, o rio Águeda.O brilhante espectáculo apresentado no último fim-de-semana em Águeda, no local onde outrora existiu a piscina fluvial, e ao qual assistiram mais de 3000 pessoas, demonstrou o carácter mítico e inspirador que o Rio Águeda tem provocado na criação artística local, revisitando todo um repertório musical e poético de todos os tempos, cujos autores e estilos se inspiraram ou dedicaram ao próprio rio.
A montagem do espectáculo ocupou o leito e a margem direita do rio Águeda, onde cerca de 400 artistas actuaram, entre os quais, a orquestra principal, um enorme coro misto (composto pelos vários grupos corais (adultos e infantis) e orfeões do concelho, diversas colectividades artísticas, actores, dançarinos, ranchos folclóricos, canoístas… A este elenco juntou-se ainda seis ensambles locais (jazz, clássico, rock e tango), os quais recriaram, dentro dos seus estilos, uma boa parte do repertório do espectáculo, numa mistura de sons e imagens dispares mas de harmonia incontestável.Do lado esquerdo da margem do rio, numa bancada aí colocada, cerca de 1500 pessoas em cada um dos dois dias, assistiram, maravilhadas ao espectáculo com que eram presenteadas.Assim, mais do que a audácia artística de projectos como este, o espectáculo “Povo que Lavas no Rio Águeda” consolidou a multi-parceria cultural de características inéditas entre as muitas associações culturais, recreativas e até desportivas do concelho e a autarquia, lançando e fomentando um novo estilo de identidade aguedense, que envolve, orgulha e valoriza toda a comunidade, todo o concelho.
Do ponto de vista político, a visão estratégica de uma autarquia, a aposta séria na cultura, o sonho de um Presidente de Câmara em devolver à cidade de Águeda o seu rio, ou o rio à cidade de Águeda, a sensibilização e revitalização da importância do rio, a requalificação de toda a zona ribeirinha, a recuperação de memórias de várias gerações, a devolução a Águeda da sua Alma, agora já não apenas presente das páginas do livro de Manuel Alegre.

Carla Eliana Tavares